Preguiça
Ainda podemos ser preguiçosos?
🎵 Para ouvir: No. 1 - Lent et Douloureux / Isan
Joan Collins.
A mentalidade que impera no mundo em que me movo (e certamente onde te moves também) exige-me prontidão, alta capacidade de decisão, pensamento acelerado e produtividade permanente. Emaranhada nesta angústia da rapidez, questiono-me: “Tanta pressa para chegarmos onde?”
Com a revolução industrial, e, com a substituição da mão de obra humana pela máquina, veio a ilusão que teríamos mais tempo. E, a cada nova invenção tecnológica a promessa ressurge mas rapidamente se revoga. Não, não temos mais tempo, na essência, a cada instante o passado aumenta e o futuro diminui. O que temos é mais distrações, mais estímulos, mais demanda e a exigência de adquirirmos mais e mais competências. O capitalismo empurra-nos desde sempre para o abismo da produtividade e quem ousa ser preguiçoso? Felizmente, muitos!
A Marta D. Riezu, que escreveu numa das suas crónicas, uma coisa deliciosa: “Quando me propõem alguma apresentação ou conferência, invariavelmente digo que não. Anoto na mesma a data e a hora na agenda, e quando chega o momento, deito-me no sofá e brindo com Bitter Kas. Digo a mim mesma: outro NÃO triunfal.”
O Albert Cossery. Não podemos falar de mandriice sem mencionar o escritor da preguiça. De origem egípcia, mas radicado em Paris, viveu sempre no mesmo quarto de hotel. Dos seus 94 anos de vida, quase sessenta dedicou-os aos livros, mas, publicou apenas oito obras. Dizem que escrevia uma frase por semana e, justificava a preguiça como o seu espaço e tempo para a reflexão. Foi um homem livre, ignorando a pressão e a produtividade. Em “Mandriões no Vale Fértil” explica que ser preguiçoso não é defeito.
A personagem Oblomov, do livro homónimo do escritor russo Ivan Alexandrovitch Goncharov. O arquétipo de um mandrião. Nasceu numa família aristocrática onde foi habituado que fizessem tudo por ele. Quando chegou à idade adulta vivia enfiado num roupão e passava os dias a fazer planos que nunca colocava em prática.
O Bartleby, o escrivão de Herman Melville, outro indolente da história da literatura. Um empregado de escritório que passava os dias a olhar fixamente para a parede do prédio da frente. Quando lhe pediam algum trabalho, limitava-se a dizer: “Preferia não o fazer!”
O Jerome K. Jerome, um dos mais ociosos e bem humorados escritores. Proferiu que “é impossível desfrutar completamente da preguiça, a menos que se tenha muito que fazer”. Para ele o que melhor caracteriza um preguiçoso, é estar imensamente ocupado, porque perder tempo é uma verdadeira ocupação.
Um bálsamo saber destes exemplos, num tempo em que os livros, que ocupam o top de venda das livrarias, só falam de produtividade e gestão eficaz do tempo. Já não se escrevem (nem se lêem) epopeias da pantufa.
Na era dos freelancers e do teletrabalho, em que estar enrolado numa manta, já não significa estar no recato do lar a descansar, mas sim em frente a um computador horas a fio a produzir. Quem foi que disse afinal, que já não podemos ser preguiçosos?
Cultivemos a arte de não fazer nada. Afinal o ócio é o habitat do pensamento e da criatividade.
Off-topic
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Adorei. A newwwsletter traz sempre pontos de vista que não são mainstream e isso é tão bom. obrigado.
Que bom ter as tuas publicações únicas de volta! Sempre uma lufada de ar fresco